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Por: Prof. Alexandre Bendas

Atualidades na Dirofilariose canina

O aumento da expectativa de vida dA dirofilariose canina ou doença do verme do coração é causada pelo parasita Dirofilaria immitis, que habita preferencialmente as artérias pulmonares, podendo ser encontrado também nas cavidades cardíacas direitas e até mesmo no interior da veia cava. O ciclo biológico depende de hospedeiros definitivos portadores de microfilaremia (geralmente canídeos) e mosquitos considerados hospedeiros intermediários (BRADLEY; NAYAR, 1987).

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Apesar do nome “verme do coração” sugerir o envolvimento primário deste órgão, o habitat dos parasitos e consequente aparecimento de lesões ocorrem nas artérias pulmonares (TUDOR et al., 2014). Dessa forma, a presença dos parasitos e sua movimentação nas artérias leva à agressão mecânica no endotélio vascular e essas lesões são a chave para o subsequente desenvolvimento da patogenia pulmonar e cardíaca (BOWMAN, ATKINS, 2009).

Os sinais clínicos da dirofilariose canina são variáveis, desde um quadro assintomático, passando por manifestações clínicas inespecíficas até quadros graves e óbito. Os animais acometidos podem apresentar perda de peso, diminuição da tolerância ao exercício, mucosas pálidas, anemia, letargia,tosse, dispneia, síncope, ascite, caquexia e intolerância total ao exercício. A morte do animal normalmente ocorre em decorrência de insuficiência cardíaca direita (ATWELL, 1988).

Figura 1 – Imagem ecocardiográfica (corte paraesternal longitudinal direito modificado para artéria pulmonar) de um cão infectado por Dirofilaria immitis evidenciando estruturas hiperecóicas no interior da artéria pulmonar (setas verdes). AP: artéria pulmonar, VD: ventrículo direito. Fonte: Arquivo pessoal.

A infecção canina por D. immitis pode ser identificada, utilizando-se amostras sanguíneas para detecção de microfiláriaseliminadas por vermes fêmeas com mais de seis meses (técnica de Knott)ou de antígenos eliminados por fêmeas com mais de oito meses (utilizando-se diferentes testes comerciais)(NELSON et al., 2005). É muito importante a realização dos dois testes (pesquisa de microfilárias e pesquisa de antígenos) já que os resultados podem ser complementares. Aproximadamente 30% dos animais infectados não apresentam microfilárias detectáveis (infecções amicrofilarêmicas), isto pode ocorrer pela presença de vermes imaturos (menos de 6 meses pós infecção), reação imunológica do hospedeiro, infecção por apenas um sexo e o uso de drogas microfilaricidas para tratamento de outras doenças, como a moxidectina para tratamento de sarna por exemplo.

Em relação à pesquisa de antígenos, apesar da alta sensibilidade, resultados falsos negativos podem eventualmente ocorrer quando níveis de antígenos se encontram abaixo da sensibilidade analítica do teste.Isso pode ocorrer nas infecções por fêmeas com menos de oito meses pós infecção, infecção apenas por machos, erro da execução do teste e neutralização dos antígenos por anticorpos específicos produzidos pelo hospedeiro (BENDAS et al., 2017; SAVADELIS et al., 2018).

Estudos sugerem que o pré-aquecimento das amostras sanguíneas de cães infectados aumentaria a sensibilidade do teste, porém não há recomendação em bula (VELASQUEZ et al., 2014; DRAKE et al., 2015, CIUCA et al., 2016, BENDAS et al., 2017). Atualmente, para dirimir dúvidas, e de forma extra-lable, o pré-tratamento da amostra (soro ou plasma) que se recomenda é o aquecimento a 104oC, durante 10 minutos. O precipitado resultante deve ser centrifugado a 16.000rpm durante 5 min e o sobrenadante utilizado para realização do teste (DRAKE et al., 2015). 

O diagnóstico também pode ser realizado pela visualização dos parasitos adultos pela ecocardiografia (figura 1), porém este não é considerado o método diagnóstico de eleição, pois é dependente da presença dos parasitos nos ramos principais da artéria pulmonar ou câmaras cardíacas direitas. (MADRON, 2016).

Figura 2 – Imagem radiográfica de cão infectado por Dirofilaria immitis, na posição ventrodorsal, evidenciando aumento importante do tronco pulmonar (seta branca). Fonte: Ana Carolina Mota (IEMEV-RJ).

Tanto o exame ecocardiográfico quanto radiográfico é mais indicado para avaliação das lesões cardíacas e pulmonares geradas pela infecção. Na radiografia os achados mais comuns são aumento atrioventricular direito, dilatação do tronco pulmonar (figura 2) e das artérias pulmonares caudais além de marcação pulmonar micronodular (THRALL, 2013).

Atualmente no Brasil, as moléculas recomendadas para prevenção de infecções caninas por D. immitis são todas da classe das lactonas macrocíclicas (LMs). Existem opções para administração oral (ivermectina e milbemicina); aplicação tópica (selamectinae moxidectina) e aplicação subcutânea (moxidectina de liberação lenta). Com exceção da moxidectina de liberação lenta, cuja aplicação é anual, as outras lactonas devem ser aplicadas mensalmente. O esquecimento ou atraso em uma das doses pode ser suficiente para que o animal se infecte.

O objetivo do tratamento da dirofilariose é melhorar as condições clínicas do animal e eliminar todos os estádios do parasito com o mínimo de efeitos colaterais. Portanto, cães que apresentem sinais clínicos importantes devem ser estabilizados antes da administração de medicamentos específicos(AMERICAN HEARTWORM SOCIETY, 2018).

O medicamento adulticida recomendado mundialmente (hidrocloridrato de melarsomina) não tem registro para uso no Brasil, levando à utilização de estratégias terapêuticas alternativas (BENDAS et al., 2017). O tratamento alternativo é realizado com a utilização mensal das lactonas macrocíclicas em doses profiláticas associadas à doxiciclina (10mg/Kg/BID/30 dias) (AMERICAN HEARTWORM SOCIETY, 2018).

Figura 3A e 3B–Imagem de necropsia de coração e artéria pulmonar de cão exibindo presença de exemplares adultos de Dirofilaria immitis (setas azuis) e presença de trombo(seta branca). Fonte: Arquivo pessoal.

A associação das LMs com a doxiciclina tem efeito sinérgico na eliminação das microfilárias e dos parasitos adultos principalmente pela ação do antibiótico sobrebactérias do gênero Wolbachia, já que estas participam ativamente de funções vitais dos parasitos. (McCALL et al., 2014; MENOZZI et al., 2015).

Em 2018, a American Heartworm Societypassou a preconizar a administração das lactonas macrocíclicas mensalmente na dose preventiva e um ciclo de doxiciclina na dose de 10mg/kg/BID durante 30 dias consecutivos. A eficácia do tratamento alternativo deve ser acompanhada a cada seis meses pela pesquisa de antígenos. Quando após 12 meses de tratamento ininterrupto ainda for possível detectar antígenos, novo ciclo de doxiciclina (10mg/kg/BID) deve ser realizado por 30 dias.  Ao se obter dois resultados de pesquisa de antígeno negativo com intervalo de seis meses, o animal é considerado livre de infecção (AMERICAN HEARTWORM SOCIETY, 2018).

Em 2020, foi publicado um trabalho que avaliou a eficácia da associação da moxidectina de liberação lenta (Proheart SR12) aplicada semestralmente, ao invés de uma vez ao ano, associada a ciclos semestrais de doxiciclina (10mg/kg/BID/30 dias) no tratamento de cães infectados por Dirofilaria immitis, o estudo apresentou boa segurança e eficácia semelhante ao tratamento utilizando-se a moxidectina tópica associada a doxiciclina (ALBERIGI et al, 2020).

O tromboembolismo pulmonar é uma consequência inevitável da terapia adulticida ou da morte natural dos pacientes, e a sua gravidade pode estar relacionada à carga parasitária e ao grau de lesão da vasculatura pulmonar. A restrição do exercício físico é crucial para redução de complicações tromboembólicas (AMERICAN HEARTWORM SOCIETY, 2018) (Figura 3A e 3B).

Apesar de tratamentos alternativos estarem disponíveis no Brasil, a prevenção da infecção continua sendo a melhor alternativa em termos de segurança para o paciente quanto ao custo financeiro.

Referências:

ALBERIGI, B.; FERNANDES, J. I.; PAIVA, J. P.; MENDES-DE-ALMEIDA, F.; KNACKFUSS, F.; MERLO, A.; LABARTHE, N. Efficacy of semi-annual therapy of an extended-release injectable moxidectin suspension and oral doxycycline in Dirofilaria immitis naturally infected dogs. Parasites & Vectors, n.13, v.503, 2020

AMERICAN HEARTWORM SOCIETY. Current Canine Guidelines for the Prevention, Diagnosis, and Management of Heartworm Infection in Dogs. 2018. Disponível em: https://heartwormsociety.org/images/pdf/2018-AHS-Canine-Guidelines.pdf.Acessoem: 23 de fevereiro de 2021.

ATWELL, R. B.; SUTTON, R. H.; MOODIE, E. W. Pulmonary changes associated with dead filariae (Dirofilaria immitis) and concurrent antigenic exposure in dogs. Journal of comparative Pathology, v.98, p.349-361, 1988.

BENDAS, A.J.R.; MENDES-DE-ALMEIDA, F.; VON SIMSON, C.; LABARTHE, N.V. Heat pretreatment of canine samples to evaluate efficacy of imidacloprid + moxidectin and doxycycline in heartworm treatment. Parasites & Vectors, v.10, p.246, 2017.

BOWMAN, D. D.; ATKINS, C. E. Heartworm biology, treatment, and control. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v.39, p.1127-1158, 2009.

BRADLEY, T. J.; NAYAR, J. K. An ultrastructural study of Dirofilaria immitis infection in the Malpighian tubules of Anopheles quadrimaculatus. Journal of Parasitology, v.53, p.1035-1043, 1987.

CIUCA, L.; GENCHI, M.; KRAMER, L.; MANGIA, C.; MIRON, L. D.; DEL PRETE, L.; MAURELLI, M. P.; CRINGOLI, G.; RINALDI, L. Heat treatment of serum samples from stray dogs naturally exposed to Dirofilaria immitis and Dirofilaria repens in Romania. Veterinary Parasitology, v.225, p.81-85, 2016.

DRAKE, J.; GRUNTMEIR, J.; MERRITTI, H.; ALLEN, L.; LITTLE, S. E. False negative antigen tests in dogs infected with heartworm and placed on macrocyclic lactone preventives. Parasites & Vectors, v.8, 68, 2015.

MCCALL, J.W., KRAMER, L.; GENCHI, C.; GUERRERO, J; DZIMIANSKI, M.T.; MANSOUR, A. MCCALL, S.D., CARSON, B. Effects of doxycycline on heartworm embryogenesis, transmission, circulating microfilaria, and adult worms in microfilaremic dogs. Veterinary Parasitology, v.206, p.5-13, 2014

MADRON, E. Dirofilariasis: Specific bidimensional aspects. In: Clinical Echocardiography of the dog and cat. Elsevier, St. Louis, Missouri, 345p. 2016.

MENOZZI, A.; BERTINI, S.; TURIN, L.; SERVENTI, P.; KRAMER, L.; BAZZOCHI, C. Doxycicline levels and anti-Wolbachia antibodies in sera from dogs experimentally infected with Dirofilaria imittis and treated with a combination of ivermectin/doxycycline. Veterinary parasitology, v.209, p.281-284, 2015.

NELSON, C.T.; McCALL, J.W.; RUBIN, S.B.; BUZHARDT, L.F.; DORION, D.W.; GRAHAM, W.; LONGHOFER, S.L.; GUERRERO, J.; ROBERTSON-PLOUCH, C.; PAUL, A; Executive Board of the American Heartworm Society. 2005 Guidelines for the diagnosis, prevention and management of heartworm (Dirofilaria immitis) infection in dogs. Veterinary Parasitology, v.133, n.2-3, p.255-66, Oct 24, 2005

SAVADELIS, M.D.; ROVETO, J.L.; OHMES, C.M.; HOSTETLER, J.A.; SETTJE, T.L.; DZIMIANSKI, M.T.; MOORHEAD, A.R. Evaluation of heat-treating heartworm-positive canine serum samples during treatment with Advantage Multi® for dogs and doxycycline. Parasites & Vectors. v.11, n.1, p.98, 2018.

THRALL, D.E. Practical approach to obtaining and interpreting thoracic radiographs in dogs, with emphasis on heartworm disease and its mimics American Heartworm Society, 2013 abstracts.14th Triennial Symposium.

VELASQUEZ, L.; BLAGBURN, B.L.; DUNCAN-DECOQ, R.; JOHNSON, E.M.; ALLEN, K.E.; MEINKOTH, J., GRINTMEIR, J.; LITTLE, S.E. Increased prevalence of Dirofilaria immitis antigen in canine samples after heat treatment. Veterinary Parasitology, v.206, p. 67-70, 2014.

Prof. Alexandre Bendas

Graduado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Mestrado e doutorado em clínica médica e reprodução pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Atualmente docente de clínica médica de animais de companhia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e tutor dos residentes em cardiologia e doenças respiratórias de animais de companhia da UFRRJ.

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